Parece uma flor, mas é uma aranha: ela usa sinal invisível aos humanos para caçar
Aranha que parece flor usa sinal invisível aos humanos para caçar À primeira vista, o corpo claro e as projeções do abdômen podem fazer a Epicadus heterog...
Aranha que parece flor usa sinal invisível aos humanos para caçar À primeira vista, o corpo claro e as projeções do abdômen podem fazer a Epicadus heterogaster lembrar uma flor. Para alguns insetos, porém, a semelhança pode ser ainda mais convincente — e perigosa. Conhecida como uma das aranhas-caranguejo, a espécie usa uma estratégia incomum para conseguir alimento: permanece à espera de potenciais presas e pode atraí-las por meio de sinais visuais, entre eles a reflexão de luz ultravioleta (UV). 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram O mais curioso é que as fêmeas adultas não precisam necessariamente estar sobre flores para conseguir esse efeito. Elas foram observadas atraindo polinizadores enquanto permaneciam sobre folhas verdes, inclusive quando não havia flores nas proximidades. O comportamento foi investigado por pesquisadores brasileiros em um estudo publicado em 2017 na revista científica Scientific Reports. O trabalho reuniu cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Os experimentos foram realizados em áreas de Mata Atlântica da Reserva Biológica da Serra do Japi, na região de Jundiaí, no interior de São Paulo. Ao longo de três anos, os pesquisadores filmaram o comportamento da espécie durante quase 4.849 horas, especialmente para compreender a caça e a captura de presas. Parece uma flor, mas é uma aranha: ela usa sinal invisível aos humanos para caçar chiroxiphia / iNaturalist Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: ‘PAISAGEM DO MEDO’: Macacos e elefantes mudam forma de se locomover quando percebem perigo AO MUNDO: Brasil leva à Europa experiências para devolver animais a locais onde desapareceram COMPORTAMENTO: Caso de homem atacado por morcego-vampiro é descrito pela ciência Uma armadilha para os olhos A estratégia está relacionada à forma como os potenciais visitantes percebem o predador. "Aranhas da família Thomisidae são predadoras de emboscada. Em vez de construir uma teia para capturar o alimento, muitas permanecem sobre a vegetação à espera da aproximação de insetos", explica o biólogo Ricardo Marques. "Em diversas espécies desse grupo, as flores fazem parte da estratégia", reforça o especialista. As aranhas ficam posicionadas sobre elas e capturam os polinizadores que se aproximam. Algumas também refletem luz ultravioleta, modificando os sinais visuais percebidos pelos visitantes das flores. A Epicadus heterogaster, no entanto, chamou a atenção dos pesquisadores justamente por não depender necessariamente desse cenário. Seu abdômen apresenta projeções que, aos olhos humanos, lembram estruturas de uma flor. Além disso, diferentemente de outras aranhas-caranguejo que caçam com as pernas anteriores abertas, a espécie pode mantê-las escondidas durante a espera. Com isso, o contorno do animal adquire uma aparência mais radial, semelhante à de uma flor. Conforme descrevem os autores no artigo, em tradução livre: “Considerando que essa espécie de aranha se assemelha a uma flor, com projeções abdominais semelhantes aos estigmas florais [...] sugerimos que este seja um caso de mimetismo agressivo.” No mimetismo agressivo, o engano beneficia o predador: características de outro organismo ou sinais associados a ele podem induzir a presa a se aproximar, aumentando a oportunidade de ataque. Epicadus heterogaster capturando uma abelha chiroxiphia / iNaturalist Um sinal que os humanos não enxergam Parte importante desse “disfarce” está em uma faixa do espectro que os seres humanos não conseguem enxergar: o ultravioleta. Para testar a importância desse sinal, os pesquisadores realizaram um experimento engenhoso. Eles utilizaram substâncias presentes em protetores solares capazes de absorver radiação UVA e UVB e bloquearam experimentalmente a reflexão ultravioleta na região dorsal das aranhas. O teste foi realizado em folhas, sem que uma flor servisse de chamariz. Os pesquisadores compararam aranhas com a reflexão UV bloqueada, indivíduos com o produto aplicado em outra parte do corpo, aranhas vivas sem a substância e folhas sem aranhas. O resultado revelou a importância do ultravioleta. As aranhas que mantiveram o sinal UV ativo atraíram polinizadores de diferentes grupos. Quando a reflexão ultravioleta dorsal foi bloqueada, os insetos deixaram de pousar nelas e apresentaram comportamento de evasão. Entre os visitantes, os himenópteros — grupo que inclui abelhas e vespas — foram os mais frequentes. “Quando removemos os sinais de reflexão UV, os polinizadores evitaram as aranhas. Esses resultados indicam que a reflexão UV é um importante sinal visual na atração dos polinizadores”, afirmam os autores no artigo, em tradução livre. Os pesquisadores também constataram que aranhas vivas receberam menos visitantes do que indivíduos anestesiados. Segundo o trabalho, o movimento pode interferir na forma como os insetos reconhecem e detectam o predador. Uma flor sobre a folha? Estratégia de aranha engana polinizadores durante a caça humbertoav / iNaturalist Jovens e adultas caçam de formas diferentes A estratégia também muda conforme a aranha cresce. Os pesquisadores analisaram 30 fêmeas encontradas ao longo de trilhas na Serra do Japi. As jovens, com comprimento corporal total entre 0,29 e 0,60 centímetro, foram observadas sobre flores. Já as adultas, que mediam entre 0,82 e 2,59 centímetros, apareceram sobre folhas. Curiosamente, jovens e adultas apresentaram níveis semelhantes de reflexão ultravioleta. A diferença, portanto, não parece estar simplesmente na capacidade de refletir UV. Segundo os autores, as jovens conseguem permanecer visualmente pouco distinguíveis quando estão sobre flores. As adultas, por outro lado, apresentam comportamento mais especializado e podem explorar as folhas como plataforma de caça. O trabalho sugere que o tamanho corporal pode estar relacionado a essa mudança. A independência das flores pode trazer vantagens. Em períodos de menor disponibilidade floral, por exemplo, conseguir atrair alimento sobre folhas ampliaria os locais disponíveis para a caça. Os pesquisadores também levantam a possibilidade de que caçar longe das flores reduza a competição e o contato com outros predadores que utilizam esses ambientes. Nem flor, nem acaso: aranha usa sinais visuais para fazer a presa se aproximar gafischer / iNaturalist É realmente uma flor falsa? Apesar das evidências, há uma pergunta que os próprios pesquisadores mantiveram em aberto. A aranha estaria realmente imitando uma flor — caracterizando o chamado mimetismo agressivo — ou seu corpo simplesmente produz um estímulo capaz de explorar preferências visuais já existentes nos polinizadores? “Essa questão ainda está aberta para futuras pesquisas”, escreveram os autores, em tradução livre. O estudo aponta, porém, diferentes características que sustentam a hipótese de mimetismo: o formato do abdômen, as projeções semelhantes a estruturas florais, o posicionamento das pernas e a reflexão ultravioleta. Os pesquisadores concluem que o UV provavelmente não atua sozinho. “A reflexão UV parece ser responsável por atrair polinizadores como uma flor, independentemente do substrato de forrageamento. No entanto, acreditamos que, para esse mecanismo de atração ser bem-sucedido, o UV pode não ser o único atributo da aranha”, afirmam, em tradução. Características como formato corporal e comportamentos especializados também podem participar do mecanismo. Aranha que parece flor usa sinal invisível aos humanos para atrair suas presas diana32003 / iNaturalist Uma aranha de ampla distribuição Embora o experimento tenha sido realizado no interior paulista, a Epicadus heterogaster não ocorre apenas em São Paulo. O World Spider Catalog, referência internacional para a taxonomia de aranhas, reconhece atualmente Epicadus heterogaster (Guérin, 1829) como espécie válida da família Thomisidae. Sua distribuição conhecida se estende por diferentes países da América Central e da América do Sul, incluindo Brasil, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Venezuela, Guiana, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai e Argentina. Uma revisão taxonômica da espécie também registra sua ocorrência em diferentes estados brasileiros, entre eles São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, Pará, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rondônia e Roraima. A espécie apresenta ainda grande variação de cores. O estudo da Scientific Reports descreve indivíduos brancos, amarelos e roxos e relata a capacidade de combinar a coloração com flores ou estruturas próximas. Essa combinação entre forma, cor, comportamento e sinais que sequer são visíveis aos olhos humanos transforma a pequena aranha em um exemplo de como uma relação entre predador e presa pode ser definida não apenas por força ou velocidade, mas também pela percepção. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente